O que você sabe sobre música indiana? - Parte 2
Por Marcus Wolff
Leia a PARTE 1 clicando aqui.
PARTE 2
A maioria dos pesquisadores afirma que a primeira fase da música indiana começa com o canto védico, iniciado com a chegada dos arianos ao subcontinente. Sendo transmitidas oralmente as tradições religiosas transmitidas pelos chamados “sábios-videntes” (rishis) deram nascimento aos livros chamados de Vedas que contém orações, hinos, fórmulas encantatórias e ritualísticas. Os hinos do Rigveda, o primeiro livro sagrado dos hindus, eram cantados de um modo que as palavras eram entoadas em três “alturas” diferentes, sendo as melodias formadas apenas por três notas de freqüências próximas. Não é possível nesse artigo aprofundar a descrição dos cantos védicos, que parecem ter pouca relação com as tradições de música clássica da Índia de hoje, uma vez que desconheciam o sistema melódico modal composto pelos ragas, bem como o sistema métrico de talas utilizado nas tradições clássicas de hoje.
De acordo com o musicólogo indiano B. C. Deva (Indian Music 1990), a música derivada dos cantos védicos, altamente simbólica, baseada em escalas diatônicas descendentes e governada por uma gramática estrita foi chamada de “marga sangita” (música do caminho). Sua função era religiosa e, portanto, não se tolerava qualquer desvio das normas bem precisas estabelecidas pela casta sacerdotal (brâmane). Apesar de toda essa inflexibilidade, Deva aponta o desenvolvimento progressivo de diferentes ramos do canto védico, devido a uma mistura de algumas tribos arianas com as populações nativas de cada região do subcontinente. Pode-se suspeitar que tal processo tenha acompanhado o movimento em direção ao sincretismo religioso, tendo resultado no surgimento da chamada “deshi sangita” (literalmente música da terra ou da região), menos restrita a regras gramaticais e com finalidades não religiosas, tais como simplesmente agradar os ouvintes. É importante frisar que foi no âmbito dessa música regional e profana que floresceu a concepção dos esquemas melódicos que foram considerados como precursores dos ragas.
Aqui chegamos a um conceito muito importante para quem quer compreender a música indiana de hoje, pois raga é um conceito central da música indiana, sendo algo complexo já que todo raga tem um lado técnico-musical e um lado abstrato/estético. A imagem abstrata é muitas vezes representada em poemas ou em pinturas que procuram demonstrar o espírito intrínseco do raga. Tecnicamente ragas são estruturas melódicas em que a entoação das notas, bem como suas durações relativas e ordem (sucessividade) são previamente definidas. Suas notas possuem um escala ascendente e outra descendente (nem sempre são iguais). Por isso, a ordem na qual as notas são usadas numa canção clássica é semi-fixa e as notas devem pertencer às escalas ascendente e descendente do raga.
Alguns ragas possuem frases características (pakar) que as tornam facilmente reconhecíveis pelo público indiano; outras possuem notas com ornamentos específicos ou tem registros específicos (mais grave, ou região média ou aguda); todo raga possui ainda notas de sustentação, predominantes que são enfatizadas ao longo da execução. Tudo isso serve para tornar o raga uma matriz sonora facilmente identificável pelo ouvinte conhecedor; além disso, essa matriz serve de fundamento sobre o qual o músico deve improvisar. Há diferentes estilos de improvisação na música hindustani de hoje, sendo alguns improvisos não medidos (sem métrica) chamados alaps; outros improvisos são medidos (bistar) sendo encaixados num ciclo rítmico. Tais formas de improvisar ganharam diferentes coloridos locais, devido aos dialetos musicais estabelecidos pelas “gharanas” (escolas de canto) ou “banis” (escolas de instrumentos).
*A terceira e última parte será publicada na próxima semana.

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By Cafetina Eletroacústica » O que você sabe sobre a música indiana? - Parte 1 on 11.04.08 7:09 am
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