O que você sabe sobre música indiana? - Parte 3
Por Marcus Wolff
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É importante destacar a importância do teatro sânscrito para o desenvolvimento da chamada música clássica indiana atual baseada nos conceitos de raga e rasa, uma vez que na esfera da corte a música e a dança estavam tão entrelaçadas que não eram distinguidas. O termo samgita (que significa a arte de cantar, tocar instrumentos e dançar) indica o quanto a música estava indissociada da representação num tipo de teatro gestual em que a palavra falada foi sendo gradativamente substituída pelos gestos (mudras) e pela palavra cantada (gita).
Nas peças de teatro escritas por Kalidasa (por volta do final do séc. IV d.C.) membros da elite aparecem como estudantes de música ou de teatro, dança e pintura. Mas o mais importante é que a teoria estética que relaciona as estruturas melódicas (ragas) a diferentes estados de espírito codificados (rasas) havia florescido no teatro sânscrito, tendo sido preservada e expandida até a atualidade. Essa teoria estética tinha sido elaborada no tratado de Bharata, o Natya Shastra, entre 200 a. C. e 500 a. C., integrando o Veda dos Cânticos (Samaveda) e parece ter sido transplantada para a esfera do teatro das cortes.
Ainda hoje no norte da Índia, as estruturas melódicas (ragas) são relacionadas aos estados de espírito - que na tradição do antigo teatro clássico eram nove rasas (o erótico/ amoroso, o cômico, o patético/ compassivo, o furioso, o heróico, o terrível, o repugnante, o assombro/ êxtase e o tranqüilo /pacífico ).Gradualmente tais estruturas também passaram a ser relacionadas às estações do ano ou às divindades do panteão hindu, o que se pode considerar uma ampliação da concepção original de relacionar a estrutura musical a algo extra-musical (o que numa abordagem semiótica se poderia chamar de uma concepção de representação que vincula o signo musical a um objeto não acústico).
O compositor H. J. Koeulreutter percebeu nessa vinculação dos ragas a algo extra-musical uma concepção holística afirmando, num artigo chamado “A Música da Índia”, já em 1960, que existe uma relação estreita entre música, religião e filosofia, sendo que a música constitui para o hindu um dos meios de unir-se ao princípio original e, desse modo, alcançar a redenção definitiva. Koellreuter explica:
“A interdependência de todas as manifestações da vida espiritual hindu, assim como a idéia fundamental de que tudo é o mesmo, atribuem à música indiana um aspecto de monotonia que nos causa frequentemente uma sensação de um movimento circular, de um girar em torno de um mesmo ponto. O círculo, porém, é o símbolo da alma, do retorno a um mesmo ponto, no ciclo das estações do ano, das horas do dia e no ciclo da vida e morte”.
Assim, do mesmo modo que há uma relação secreta entre o som (nada) e o silêncio (anahata-nada ou o som não manifesto), laços misteriosos uniriam as estruturas melódicas dos ragas às cores, sabores e humores que constituem os diferentes momentos do teatro da vida que vivemos.

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